MOTE:

"Eu sou uma autêntica bomba abandonada! Temo explodir a qualquer momento..."
- Frase de um ex-combatente, anónimo.

Amigos

quarta-feira, 27 de abril de 2016

terça-feira, 14 de abril de 2015

MUEDA! QUEM ÉS TU?

- Eu sou o fulcro dessa balança,

a que chamam terrorismo.

 

- Sou o terror dos metropolitanos,

dos “coca-colas” e até dos turras.

 

- Porque o pó que se respira,

é o pó da pólvora queimada.

 

- Porque a água que se bebe,

é a água manchada de sangue.

 

- Porque as quietudes das noites,

são quebradas pela incerteza.

 

- Porque os dias que passam,

são dias que não mais passam.

 

- Tenho o meu ventre inchado,

pronto a parir maquinismos

e homens que são títeres,

para semearem a morte.

 

- Tenho um grande hospital,

para dar aquilo

que nos obrigam a roubar,

impelindo-nos para o abismo

da morte ou da invalidez…

e como indeminização?...

- Uma medalha…

Algumas a titulo póstumo,

daqueles que eram o sustento das viúvas

e até dos próprios pais.

 

- 10 de Junho.

Dia da Raça.

Mas que raça?...

Raça de autómatos sorridentes.

Bem vestidos. A desempenharem a sua   função:

- Medalhar! Medalhar! Medalhar!

 

- Onde estão eles que não nos vem visitar?

 

- Honrai a Pátria, que a Pátria vos contempla.

 

Como?

 

Assim!...

Não!... - Dizem eles.

 

- Mais vale viver desonrado,

do que morrer ou ficar aleijado.

 

Luís Jorge

1 de Agosto de 1969

Mueda – Moçambique

África Oriental Portuguesa

 

- Post Scriptum: Dia do meu 24.º aniversário

(Será que alguém vai ler isto?)

 

Luís Jorge (Ferreirinha Júnior)

quinta-feira, 26 de março de 2015

…PORQUE, AINDA VIVO…



um dia deram-te uma arma,

e uma missão:

- matar!...matar!…matar!...

 

eras tu, pouco mais que criança…

fintaram-te a juventude.

roubando-te a esperança.

algemando tudo o que era virtude…

 

uns anos mais tarde,

porque, ainda vivo,

com mais nada para te tirar…

pediram-te de volta a tua “mulher”..

assim chamavam à espingarda

que um dia te deram,

para com ela tu tudo matares…

homem…mulher…

menina…rapaz…

velho…criança…

…tudo em nome da “paz”…

 

aos outros…já mortos…

chamaram os pais,

as viúvas, os meninos órfãos

que nunca conheceram os seus pais…

a quem pomposamente

lhes deram uma medalha…

 

a ti, porque, ainda vivo,

deram-te o nada

acompanhado do abandono

como que dizendo:

- vai, cão sem dono!…

desaparece!...

 

hoje, em tempos de… “paz”…

és ferida que dói…

és forçado, a de novo, ser herói…

porque, ainda vivo,

em constante luta contra o stress.

 

eduardo roseira

domingo, 22 de março de 2015

O HERÓI - poema de Sidónio Muralha

O herói da guerra
possui 365 medalhas,
uma para cada dia do ano
(só nos anos bissextos
tem um dia de folga).


O herói da guerra
tem um desencontro
marcado com ele mesmo
(sua vocação era ser homem
e fizeram dele um herói).


o herói da guerra
precisa esquecer
(num gesto heróico
fuma heroína).


Sidónio Muralha
In: "Poemas de Abril", Lisboa, 1974, Prelo, pág.58.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

HUMANIDADE NA GUERRA?


 
“…tal o peso arrasador da máquina de guerra versus a perda da humanidade de um grupo de homens que cumprem ordens sem tempo para se interrogarem…”

                                               Daniel Deusdado, in: “Sophia, Carlos do Carmo – quase tudo”

                                                                          «Praça da Liberdade», Jornal de Notícias, 3/7/2014

 

Há coisas que não se aprendem, porque há coisas que ninguém as sabe ensinar.
Na guerra, voluntariamente ou não, quem por lá passa, torna-se de um dia para o outro, desumano.
Há que cumprir ordens! Só isso, mais nada.
Cumpri-las, sem tempo para pensar no acto.
E é aí que o ser humano, presa fácil dos donos da guerra, perde a sua postura. Depois…, há os que gostam e nem esperam por ordens desumanas, actuam!
Outros, sabe-se lá como? Fazem um esforço sobre-humano para continuarem humanos, não deixando de cumprir ordens.
Na guerra, o verdadeiro herói é o que luta contra a sua própria desumanidade!
 
eduardo roseira

 

 

quinta-feira, 27 de março de 2014

A PODRIDÃO DA PAZ 40 ANOS APÓS A GUERRA…

Daquela noite, poética como muitas outras, em que o tema era “Guerra e Paz”, retive a imagem de revolta, desespero e quem sabe, se pedido de auxílio, de um homem “abandonado”, que de joelhos e braços abertos em cruz, questionou em alta voz:
- Porquê?
- Porque me abandonaram?
- O que é que vocês sabem da guerra?
- Eu estive lá, porra!
… em silêncio, também eu gritei com ele os mesmos porquês?!
Quarenta…quarenta longos anos depois de uma guerra que continua dentro de muitos de nós, aos quais dói, não as “mazelas” físicas e psicológicas, mas sim o abandono de um país, que nos usou, nos mentiu e nos medalhou, porque mortos, e nos ignora porque vivos.
Um país que nos trata, não como pessoas, mas como despojos de guerra, numa paz podre, porque paz!
Naquela noite, a tudo assisti, de semblante sereno (penso eu), a olhar para um velho camarada de armas, feito farrapo, que de um momento para o outro, tal como rebenta uma granada, daquelas que na emboscada surge sem sabermos de onde vem…um homem de joelhos implorando porquês???
Este homem, personifica muitos e muitos milhares de homens que pararam no tempo duma juventude estropiada por amor à Pátria…
…eu, limitei-me a acobardar os meus gritos e revi-me nele e na lágrima que uma senhora, na mesa em frente, não conseguiu reprimir e que tentou disfarçar com um leve baixar de cabeça.
Os restantes presentes na sala, compreendendo, mesmo que não aceitando o gesto, fizeram silêncio ao grito dele, enquanto eu espetava com a maior das forças, os dedos da minha mão, sim a mesma que segurou e disparou a G3, em nome da defesa da tal Pátria, na “Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial”…
Puta de paz esta, amaldiçoada por uma guerra que em nós ainda permanece…e não a pedimos para fazer…
Triste conclusão, a de quarenta anos depois, fazer o balanço e dar estupidamente conta de que é mais fácil estar entre tiros, minas e emboscadas, do que viver nesta paz…e descobrir apenas um porquê?...é que nos roubaram a juventude e mataram o futuro. Mas como portugueses que somos, LÁ nos VAMOS enganANDO e sorRINDO… até à morte final.

 
Eduardo Roseira

quarta-feira, 8 de maio de 2013

A DESPEDIDA





















 
Adeus mãe, fica com a saudade
Do teu filho que está a partir
Vou para longe, vou para a guerra
Dizem que a pátria vou servir

Até ao meu regresso amigos
Não pedi, sou obrigado a partir
Mandaram-me matar “os inimigos”
Esta obrigação não irei cumprir

Levo-te comigo minha cidade
Talvez um dia, voltarei
Será com muita saudade
Que sempre te recordarei

Vocês todos vão comigo
Por este adentro Além-mar
Levo comigo a esperança
De um dia, poder voltar.

Adeus meu amor
Minha grande paixão
É tão imensa esta dor
De tão forçada separação

(Algures alto-mar, 1965)
António D. Lima


 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

"PESADELO", de José Fanha

A guerra é um pesadelo
que te ocupa a cabeça toda a noite
com cadáveres caminhando destroçados
pelos interstícios do sono
e bombas que rebentam e espalham
fel e pregos
em todas as cartilagens,
e uma procissão de fístulas
deixando a sua baba pestilenta
pelo peito, pela boca, pelos joelhos.

A guerra é um pesadelo
onde as pombas choram
e os cavalos uivam com horror
ao ver as patas arrancadas a fugir do corpo.

A guerra é um pesadelo
onde as prostitutas implodem
na mais cruel virgindade
e a criança voa,
cirurgicamnete fragmentada,
como uma romã perdida do seu ser.

E quando a noite se esvai e a manhã chega
para te abraçarcom os seus olhos
trémulos de água
e um cheiro branco a pão,
descobres que o pesadelo
e a guerra
e os homens que fazem a guerra
continuam a espalhar a sua sementeira negra
pelas searas mais perdidas
deste mundo.

José Fanha
In: " José Fanha Poesia"
Editora Lápis de Memórias,
Coimbra, 2012

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A BOMBA

O primeiro sopro arrancou-lhe a roupa;
o imediato levou também a carne.
Ao longo da rua
durante alguns segundos correu o esqueleto.
Mas a rua já não estava,
estava toda no ar;
de lá caíam bocados de prédios, bocados
de crianças, restos de cadilaques...
O esqueleto não compreendia sozinho
aquela situação:
deixou-se tombar sobre algumas pedras radioactivas
e permitiu na queda o extravio de alguns ossos.


(Caso curioso: o coração
pulsou ainda três ou quatro vezes
entre o gradeamento das costelas.)


Egito Gonçalves
In: "Das Tripas Coração"
Campo das Letras, Porto 2001

domingo, 7 de outubro de 2012

Apresentação do Livro de Poesia "Há o silêncio em volta", de Álvaro Giesta, em Rio Mau/Penafiel

Texto da autoria de Eduardo Roseira, na apresentação do livro de poesia “há o silêncio em volta”, e do seu autor Álvaro Giesta, no dia 6 de Outubro de 2012, no Clube Social de Rio Mau, em Penafiel.
 
Boa Tarde,
 
Dizem que “De poeta e louco todos temos um pouco”. E é bem verdade, contudo, se há os que se assumem como poetas, poucos são os que reconhecem que são loucos, digo isto porque só mesmo um louco é que cometia o disparate de me convidar para fazer a apresentação de um livro, mas já que isso aconteceu, só tenho a agradecer tal escolha, pois pela primeira vez na minha vida, e o mais certo é que seja a última, vou ter a oportunidade de estar no papel de critico literário ao apresentar o livro e o autor, ainda por cima que só hoje é que conheci pessoalmente.
Ou seja, como me deram, enfim, direito aos meus minutos de fama, para dizer o que criticamente analisei no livro “Há o Silêncio em Volta”; para poder tratar o seu autor, não pelo nome ou pseudónimo, mas pelo pomposo termo técnico-literário, de “ o sujeito poético” e, para logicamente, deixar nas vossas memórias uma lição sobre o que é a poesia.
E é precisamente por aqui que eu vou começar, perguntando-vos:
- O QUE É A POESIA???
Vá lá respondam, e digam-me numa só palavra: “O que é a Poesia?” (Perguntar ao público)
 
Pois, podemos com essas vossas palavras (1) “conjunto” – “pensamento” – “dor” – “esperança” – “sentir” – concluir que: “Poesia é uma Ilha rodeada de palavras por todos os lados!”, o autor desta frase é o poeta brasileiro, Cassiano Ricardo.
Quanto à lição de Poesia, uff, tarefa cumprida!
 
Passemos agora à apresentação do autor, tarefa que é muito difícil, senão impossível, pois como referi no início, só o conheço do “facebook” e da troca de algumas mensagens, ou seja, é aqui que entra o meu eu/crítico literário, que para brilhar como tal, vai andar à procura do “sujeito poético”, e como acontece normalmente, não o encontrando no livro desata a compará-lo com os nomes mais sonantes da nossa literatura.
Garanto-vos que eu li esta obra da primeira à última página, voltei a reler da última página até ao início do livro, olhei até, por diversas vezes para o índice, coloquei o livro de pernas para o ar, e nem assim, encontrei o Fernando Pessoa; o Camões; o Eça: a Florbela; Eugénio; Sophia e nem mesmo o José Saramago. Por tal comecei a ficar com dúvidas sobre as minhas capacidades de crítico literário, pois não o consegui comparar com nenhum autor consagrado, pelo que concluí que o melhor é aconselhar-vos a lerem o livro e na contracapa vão ficar a saber quem é o Álvaro Giesta.
 
Chegamos então à parte da apresentação em que cabe ao meu eu/crítico literário, já que não consegui comparar o poeta Álvaro Giesta, com os seus pares consagrados, dissecar página a página, poema a poema e retalhar verso a verso, e partir para uma desfilada de palavreado rebuscado no dicionário e desatar a ver imagens que não estão no livro e a encontrar cenários que só estão na minha cabeça de pseudo-crítico literário, que nunca fui e que para vossa felicidade, não quero ser.
 
Daí que já podem respirar fundo pois a minha tarefa como “crítico literário” terminou e regresso ao meu eu, meu eu que no campo da poesia, ou gosta ou não gosta, e no caso deste “Há o Silêncio em Volta”, gostei e nada de confundirem com o “like” do Facebook. Gostei mesmo.
 
Quanto ao autor e ao livro, a mim Eduardo Roseira, leitor, cabe-me fazer a seguinte….:
 
 
CONFISSÃO (que dedico…)
Aos
Poeta Álvaro Giesta
e  ex-combatente Fernando Reis
 
ao ler-te e reler-te
desfiz todas as dúvidas
sobre a possibilidade
da intimidade entre
o leitor e o autor.
e o de se poderem criar laços
entre dois seres
que não se conhecendo…
conhecem-se afinal
desde sempre.
 
por isso, preciso confessar-te que:
 
contigo,
viajando nos teus poemas/barco
visitei e percorri lugares por essa África distante,
e em nós sempre presente,
onde construíste teus versos.
contigo,
conheci a musa de todas
as tuas inspirações
sofri  de novo emboscadas
e senti  velhas interrogações.
 
contigo,
meu camarada, irmão
aprendi que às vezes na poesia
há o silêncio em volta
que sem sofrimento
nos leva a um reencontro
com as sensações perdidas,
porque fechadas no baú do esquecimento…
 
(Eduardo Roseira, Vila Nova de Gaia, 1 de Outubro de 2012)
 
Permitam-me que cite José Saramago quando refere que: “Todos os livros deviam ser vendidos com uma cinta a envolvê-los, com os seguintes dizeres: - Cuidado, tem uma pessoa dentro!”
 
Este livro que nos trouxe aqui hoje, tem uma pessoa dentro, que se chama Fernando Reis, o ex-combatente, que empresta o corpo ao Poeta Álvaro Giesta.
 
Poeta que sem ter nascido em África, viu África nascer dentro de si, por ter vivido em Angola desde 1961 até 1975, e como ele refere com boas e menos boas vivências, entre as quais, as que levaram o Poeta a vestir um camuflado militar. E é nestas imagens que eu começo a identificar-me com o Fernando e com o Álvaro. Com a continuidade da leitura do “Há o Silêncio em Volta”, dei comigo, na igualmente qualidade de ex-residente em África (Moçambique), de ex-combatente e de ter regressado a Portugal Continental “com um carimbo  que dizia: - Devolva-se ao remetente!”.
 
Como se estas coincidências da vida não bastassem, concluí que eram tantas as semelhanças do livro que me atrevo a dizer que ele é um “plágio”, não, não se assustem, pois é apenas “plágio” que transmite poeticamente, os ecos das ideias; das imagens; do sofrimento; da dor; que nós, a maioria dos ex-combatentes, trazemos guardadas no fundo das nossas almas revoltadas e que temos medo de expor; vergonha até de pensar; quanto mais de falar e, pior ainda, de escrever, mas que o Álvaro Giesta, em silêncio poeticamente gritado, coloca a sua caneta nas feridas, umas vezes em forma de dedo acusador, outras como que a colocar um penso nas mesmas, assumindo a real função do poeta, que é a de ser um “Verdadeiro Enfermeiro da Alma”, e assim fazer juz ao seu verso da página 83, quando escreve:
 “Não às palavras que ficam por dizer!”.
 
Em nome de todos os combatentes, expresso a gratidão de teres tido a coragem de quebrar o silêncio que há dentro de nós e o que nos é “imposto” há nossa volta…neste último caso, refiro-me mais concretamente ao silêncio que nos tem sido sub-repticiamente imposto pelos sucessivos governos, quando referes na página 48, que…:
            “…No cérebro a dúvida se vale a pena
              esta carícia
              da pátria agradecida.
 
              Puta de pátria que tais filhos, pares,
              para lhes agradeceres
              aos coices!”
 
Gratidão também, de em nosso nome dares uma lição, na página 70, aos que estão…:
            “…No alto
              milhões de minúsculos sinais
              luminosos
              enganam-nos com a promessa
              de que é preciso fabricar a guerra
              para fazer a paz”
 
lição que é difícil eles aprenderem, porque “A paz é podre…, porque é paz!”
 
Obrigado por na página 77 nos ajudares…:
           
“…a enterrar os mortos
         a curar as feridas dos vivos
         e a secar as suas lágrimas
         angustiados.”
 
 Saramago disse, repito, que os livros deviam ser vendidos com uma cinta a dizer: “ – Cuidado, tem uma pessoa dentro!”, ele que me perdoe, mas este teu/nosso “Há o Silêncio em Volta”, deve ser vendido com uma cinta a dizer: “ - Muito cuidado, tem várias pessoas dentro!”
 
É que além de eu me ter (re)encontrado, nele estão também o Abreu Gomes; o Santos Costa; o “Chico Fininho”; o Cabo Enfermeiro Ferreira, negro que mais tarde pertenceu ao Comité Central da UNITA; o “Chico Nhô” o “Mais Velho”, a bela Teresinha; os milhares de ouvintes do Rádio Clube do Huambo; todos os nossos camaradas ex-combatentes, especialmente os das tuas C. Caç. 205 e do B. Caç. 2911; a minha C. Caç. 18 do B. Caç. 18 e o 606 dos GE, também encontrei aqui o velho criado que dizia que “A noite tem Kazumbir/Fantasma!”, todos eles a par do Álvaro Reis e do Fernando Giesta.
Obrigado e aguardamos os outros dois livros desta trilogia, que dá pelo nome de “Veredas”.
 
 
Penafiel – Rio Mau
6 de Outubro de 2012
 
 
(Eduardo Roseira)
(1)   Palavras que foram pedidas a algumas pessoas do público.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

ELEGIA, do poeta moçambicano Nelson Saúte



A mãe beijou a pólvora
no sorriso morto do filho.
Despiu a capulana e cobriu-o.

E depois vestiu as lágrimas.

Nelson Saúte
in: "A Viagem Profana"

Imagem: google.com



domingo, 1 de julho de 2012

SOLDADO DESCONHECIDO


Há um soldado desconhecido na frente de batalha
não sei ao certo em que país ou talvez
em todos os continentes desvastados. Há um soldado
desconhecido que vem de todas as guerras já perdidas
de todos os desastres e de todas as mortes e está
na frente de batalha em um território desorbitado.
Há um soldado desconhecido que já não sabe
por quem se bate. Talvez só por si mesmo ou nem sequer
bate-se por se bater numa qualquer frente de batalha
e já não pergunta porquê nem o sentido.
Está numa frente de batalha e sabe que ninguém se importa
algures num país que já não é país
em um combate perdido
nenhum de nós sabe quem ele é e no entanto
cada um de nós está nessa frente de batalha
e não tem nome e é
esse soldado desconhecido.

Manuel Alegre
In: "Nada Está Escrito"
Publicações D. Quixote, Lisboa, 2012

Imagem: Google imagens

segunda-feira, 19 de março de 2012

FUGIR DO POEMA?


verdes eram os meninos
na idade e no fardar
feitos maduros jovens
no sofrer e no calar.

os pássaros
são cinza-cor
e trazem nas asas
a cruz de cristo!...
e cospem bombas.

meninos memórias-napalme
que tingiu  durante
três noites e iguais dias
o azul céu
e as albas nuvens,
em vermelho fogo
e negro morte.

verdes eram os meninos…
agora…
agora sonham e (re)vivem a só,
estar entre o seco capim
e o barrento pó,
e lembram
os cúmplices olhares
que acamaradavam
o medo que escondiam.

por companhia
a comunhão entre todos
os verdes meninos,
do fumo da suruma (1)
que lhes metralhava os pulmões
e aliviava a alma
e gritavam
sorriam
enquanto a tórrida cerveja
lhes camuflava os receios
que vestiam.

verdes eram os meninos…

esta a história
repetidamente sonhada,
pelos meninos verdes
sem sal
e com azar
vestidos de homens
e com ordem de matar
sem dó, nem pena
num duro e constante fingir

este o poema do qual
não consigo fugir!


eduardo roseira
  19/março/2012

(1): liamba, erva

Imagem: sapo.pt